Autor: Gildeci de Oliveira Leite
Escritor, professor da UNEB, associado ao Instituto Geográfico e Histórico da Bahia
Publicado no A Tarde em 19.01.2020
Faltam duas semanas para a festa de Iemanjá no Rio Vermelho, mas para quem tem Iemanjá como mãe, todo dia é dia de Iemanjá. Há, além do bairro da colônia dos pescadores, outros lugares para cultua-la. Iemanjá é diversa, acolhedora, conforta em seus fartos seios todos os filhos. Desconheço filha da mãe dos peixes, que não tenha seios acolhedores, maternais. Parece que o orixá, que também cuida de nossa serenidade, resolveu pedir a Oxalá para, ao moldar as mulheres, as quais a teriam como orixá regente, as fizessem com esses símbolos indubitáveis de maternidade no corpo.
Abrigados nos seios de Iemanjá Adetá, filhos biológicos, filhos de axé, liderados pelo Babalorixá Luiz Carlos Santos, encaminham procedimentos litúrgicos e civis para a consolidação do Ilê Axé Iyá Adetá no bairro do Cassange. Luiz Carlos ou Lucas de Omolu, com quase 31 anos de iniciado no Ilê Axé Opô Afonjá, é filho biológico de Mãe Nídia Maria dos Santos, filha de Iemanjá Adetá. Apesar da recente iniciativa da fundação do terreiro de candomblé, a corte sacerdotal descende de Mestre Didi e de Mãe Senhora, sacerdotisa que iniciou Mãe Stella de Oxóssi. Quase todas as lideranças possuem mais de 30 anos de iniciação, sem contar as vivências desde os nascimentos em meio aos prestigiados rituais da nação ketu. Se conviver é também iniciar-se, a Mãe Nídia devemos contar mais de 70 anos.
Plugados com as necessidades cartoriais para a continuidade do templo dedicado à grande mãe, o passo inicial para a fundação da sociedade civil, que gestará o patrimônio do terreio, foi dado. A reunião agregou, além da família biológica, diversos filhos de axé. Para Mãe Cida de Nanã, Mãe Cátia de Oxóssi, Mãe Nicéia de Oxum, Iraildes de Xangô, o sacerdote e artista plástico Antônio Carlos Oloxedê, assim como para Pai Lucas e Mãe Nídia lhes são corriqueiros os ritos religiosos e civis para o confirmado sucesso da casa de Iemanjá.
Seguindo a família biológica, com ascendência centenária na tradição dos orixás e do culto aos ancestrais, diversos filhos e filhas da espiritualidade negra se juntaram, agregando, além do axé, capital simbólico considerável. Sim filhas e filhas de axé, pois mesmo antes a existência do espaço físico no Cassange, o corpo sacerdotal já possuía suas iniciadas, seus iniciados. O Ilê Axé Iyá Adetá nasce com axé positivo, reunindo pessoas de diversas camadas sociais, de diferentes estados brasileiros, estudantes, trabalhadoras e trabalhadores de diversas profissões, artistas, intelectuais, docentes, profissionais liberais e o mais importante: gente de fé, de compromisso com os orixás, a ancestralidade e a cultura afro-brasileira. Quando for ao Cassange, faça como eu, leve seu presente para Iemanjá! Axé!