80 ANOS DE ILDÁSIO TAVARES
Autor: Gildeci de Oliveira Leite, escritor, sócio do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, professor da UNEB
Publicado em 16.02.2020 no A Tarde
Em 2009 fui convidado pela comissão executiva do EBEL (Encontro Baiano de Estudantes de Letras) para contribuir com o evento, daquela vez realizado no campus da UNEB em Seabra. Mantida a autonomia dos estudantes para a realização do EBEL, propus encaminhamentos com o intuito de manter o rigor e a leveza necessários para a existência de critérios acadêmicos. Também coube a mim, a indicação de nomes para a programação.
Convidei o poeta, amigo, professor Ildásio Tavares para realizar a conferência de abertura. Ildásio sabia escrever e improvisar percepções críticas e ensaísticas tão boas quantos suas poesias, suas narrativas, sua dramaturgia. A recordação mais recente que alguns estudantes e egressos tinham foi da conferência do Obá de Xangô no VII Congresso de Estudos Linguísticos e Literários em 2004 realizado na UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana). Na UEFS, travou-se uma batalha discursiva entre o autor de “Lídia de Oxum” e outros intelectuais, para a qual comportaria a tradução em cenas cinematográficas.
Igualmente brilhante como em 2004, Ildásio encantou o auditório que anos depois transformar-se-ia em auditório Mestre Didi, seu velho conhecido do Ilê Axé Opô Afonjá. O poeta com seu poetar cotidiano para além de sua conferência viveu todos os dias do EBEL. Deixou suas marcas na Cidade das Rosas com quadrinhas elogiosas às moças bonitas, desenhos de Xangô e Oxum feitos em minha casa e até o axé em quatro búzios guardados até hoje no mesmo recipiente utilizado por ele.
Ildásio, ao lado do Ogan e na época pró-reitor de pesquisa da UNEB, professor Wilson Mattos, improvisou um xirê, cânticos sagrados, à mesa de uma churrascaria, que entre trovas e brindes à saúde de todos os presentes, incentivou o lado adivinho do conferencista. O Ogan e Obá, como quem apenas estava brincando e as vezes em tom brevemente sério e solene, fez previsões sobre os presentes e até arriscou dizer os orixás de quem por ali perguntava ou colocava-se a ser examinado. Lembro-me da Sereia do Vento, assim nominada por nosso escritor sacerdote por lembrar uma pequena sereia mitológica e ter indisfarçável arquétipo de Iansã. A moça gostou dos elogios e ainda guarda as poesias a ela dedicadas. Lembro-me, também, de uma colega evangélica nominada Iansã das águas, pois via Ildásio na colega uma filha da jovem e dinâmica Iemanjá Ogunté.
Em 2010, Ildásio partiu no mês do I CILLAA (Congresso Internacional de Língua e Literaturas Africanas e Afro-Brasilidades), curiosamente não conseguimos convidá-lo. Quando fui Diretor da UNEB, aprovamos a nominação de nossa Biblioteca Poeta Ildásio Tavares, confirmada em 2016 pelo conselho universitário. Agora, nos cabe celebrar os 80 anos do poeta!