Autor: Gildeci de Oliveira Leite
Escritor, professor da UNEB (Universidade do Estado da Bahia), associado ao Instituto Geográfico e Histórico da Bahia
Publicado em 18.08.2019 no A Tarde
Em uma das páginas do romance amadiano “Tenda dos Milagres” uma personagem, insatisfeita com a sanha racista de Nilo Argolo, inspiração no médico Nina Rodrigues, diz “— Esse Argolo é um delirante perigoso, já é tempo que alguém lhe dê uma lição!”. Pedro Archanjo, reitor da universidade livre e popular, é o Oju Obá, olho do rei Xangô! Na antiga faculdade de medicina, o filho de Exu era um bedel, auxiliar.
Ensandecido, Argolo propõe um conjunto de leis para salvar o Brasil da negritude, da mestiçagem, da negro-mestiçagem, visto que a proposta de Jorge Amado pensa, enaltece as contribuições negras: olha a partir da senzala e não da casa grande. Para Argolo, negros eram uma sub-raça, a mestiçagem culpa de nosso atraso, complementava dizendo, que os negros ainda serviriam para o trabalho braçal. O professor de medicina legal não suportava o fato de Pedro Archanjo, denominado pela polícia de “Pardo, paisano e pobre — tirado a sabichão e a porreta”, ter sua produção intelectual valorada por alguns colegas da respeitada faculdade. Archanjo provara, que brancos na Bahia eram quase todos com a porção final do intestino grosso “preta”. O provérbio é conhecido, mas inapropriado para as folhas do jornal. Entre as propostas para a constituição de um conjunto de leis, Argolo inclui a proibição de casamentos interétnico, o isolamento da população negra até a sua definitiva deportação para território africano.
Brasil não-ficcional de 2019, talvez anos antes também. Direitos trabalhistas usurpados, proposta de uma folga a cada 07 finais de semana. Tentativa de inviabilização governamental da lei 10.639, aquela ampliada para 11.645. São dadas ordens, declarações expressas sobre a obrigatoriedade de filhos não se relacionarem com mulheres negras. Criação de medidas para dificultar que negros, pobres e paisanos tenham acesso à educação. Redução drástica de investimentos no nordeste brasileiro, pretos do país. Segregação dos contingentes territoriais negros, nordestinos, sertanejos, indígenas LGBTQI+. Assassinato de Marielle, Anderson, Mestre Moa, Evaldo dos Santos Rosa. A chacina do cabula, 12 mortos, o festejo de gols. Seriam 12 gols?
Utilização de pessoas negras bem remuneradas como capangas bem-postos ao lado dos algozes: Tenda dos Milagres ou 2019? Utilização do estado para caprichos dos poderosos. Queriam prender Tadeu Canhoto, prenderam Pedro Archanjo, mataram adversários. Temos presos políticos? Desculpe a confusão, a mistura. Na época de Archanjo, o The Intercept Brasil compunha-se dele, da princesa do recôncavo, Zabela, do povo do Pelourinho. Tomemos partido do humano! Cuidado com os delirantes perigosos! Formemos a Tenda dos Milagres para garantir a democracia!